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Tuesday, January 20, 2009


Informador da contra-espionagem britânica assassina milionário

O golpe parecia perfeito. Eliminado o escritor, o criminoso ficaria rico. Uma história macabra e violenta, que penetra nas trevas do mundo da espionagem, selva sombria de onde nem todos escapam com vida.

Luís Manuel

Allan Chappelow, escritor inglês, de 86 anos, foi assassinado pelo chinês Wang Yam, de 47, que depois cobriu o cadáver com livros e documentos, no interior da vivenda onde residia a vítima, em Hampstead, no Norte de Londres.
O alegado assassino, dissidente do regime chinês, colaborou durante vários anos como informador, embora a um nível limitado, com o serviço MI6, a contra-espionagem britânica.
Falido financeiramente, Yam optou pelo crime como forma de aceder a valores e, muito em particular, às contas bancárias do idoso.
Apesar de, inicialmente, ter negado a versão policial, confessou ter utilizado cartões de crédito da vítima, segundo o detido, fornecidos pelo líder de uma organização criminosa envolvida no tráfico de carne branca e lavagem de dinheiro. Yan alegou, ainda, que fora este indivíduo que lhe montara a armadilha que levou à sua prisão.
Corroborando, em certa medida, esta tese, o advogado do alegado assassino adiantou pistas, segundo as quais, no crime poderiam estar envolvidas outras personagens, entre elas agentes da secreta israelita, a Mossad, e elementos de tríades chinesas.

Tortura e morte

Antes de morrer, o escritor foi submetido a actos de tortura até fornecer os dados que permitiram o acesso às suas contas bancárias e a outras fontes de rendimento.
O octagenário era membro da Sociedade Real de Artes e especialista na obra de George Bernard Shaw, sobre o qual escrevera duas premiadas biografias.
Yam provem de uma família influente, com fortes ligações à actual cópula do Partido Comunista Chinês e ao falecido camarada e grande timoneiro de massas, Mao Tse Tung.
O suspeito leccionava Física Teórica, numa universidade de Beijing. Porém, a prática do comunismo desiludiu-o a ponto de, na década de 80, envolver-se no movimento pela democracia, que culminou com a chacina na Praça de Tiananmen, em 1989.
Pressionado pelas autoridades para denunciar aqueles com quem lidara - o que recusou - e sabendo ter a cabeça a prémio, em 1982 fugiu para Hong Kong, de onde partiria depois rumo à Grã-Bretanha.
Aqui recebeu asilo político, continuando a desenvolver actividade política para implementação da democracia na China.

Fraudes e burlas

Mas o bufo escondia outro tipo de vida. A defesa de ideais políticos, por muito filantropa que fosse, não era rentável. A colaboração com a secreta britânica não melhorava a sua situação económica.
Perante esta realidade não hesitou em enveredar pela prática, constante, de processos fraudulentos com que burlou numerosos compatriotas seus residentes na Grã-Bretanha. Em 2002 ainda foi ouvido pela polícia por participação num negócio menos claro, mas, como ninguém apresentou queixa, não enfrentou a Justiça. Em 2006, a empresa de importação de vinhos chineses que dirigia, faliu.
Entretanto, fazia-se passar por advogado e director de empresas fictícias. Astuto, publicou uma declaração, falsa, informando os interessados possuir 84 milhões de francos suíços, quantia depositada numa conta bancária, no paraíso fiscal helvético.
Contudo, a sua conta bancária, a real, era bem diferente. Aliás, por não ter dinheiro para pagar a renda de casa, o senhorio pô-lo na rua...
Por coincidência, residia nas imediações da, degradada, vivenda de Chappelow, que vivia sozinho, e com o qual entabulou relações amistosas.
O convívio permitiu-lhe ter acesso à correspondência e documentos do inglês, os quais violou, quando o idoso se ausentou, com a família, numa viagem aos Estados-Unidos.
Na posse de dados indentificadores, movimentou para cima de 20.000 libras de contas do vizinho.
Mas nem tudo correu como planeara. A sua pronúncia - chinesa - acabou por o trair ao efectuar chamadas telefónicas, quando tentava fazer-se passar pelo cavalheiro britânico...
As suspeitas levantadas obrigaram à intervenção da polícia, embora Yam ainda tivesse tido tempo de fugir, de comboio, para a Suiça. De nada lhe valeu a fuga, uma vez que o longo braço da Scotland-Yard acabaria por o descobrir, vindo, posteriormente, a ser extraditado para solo britânico. Segundo fonte policial, Chappelow terá sido morto pouco depois de ter regressado a Inglaterra.

Tudo em segredo

Por razões de segurança, uma vez que nas audiências poderão ser referenciadas operações de espionagem em que o arguido participou e identificar quem nelas esteve envolvido, o julgamento decorre à porta fechada.
Para alguns observadores, não causou surpresa que o asiático tivesse posto a experiência obtida no desempenho de missões de espionagem ao serviço de actos criminosos. Não é propriamente uma novidade para quem trabalha vive no mundo das secretas.
Provavelmente, as autoridades britânicas receiam que o ex- informador possa relatar aspectos sensíveis de missões de vigilância a compatriotas seus em que participou. E mais. A sua colaboração também poderá ter passado pelo controlo de agentes da secreta chinesa na Grã-Bretanha e na Europa.

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